Damiana: Entre cidades e frequências | A CABINE
15 Maio, 2026
Nesta conversa, Tatá Seixo Garrucho acompanha a trajetória de Damiana (anteriormente conhecida como mx.pinky) entre Berlim e Lisboa.
Traçando uma evolução moldada pelo DJing, pela produção musical e pelo trabalho coletivo dentro da cultura club contemporânea, Damiana conta-nos tudo nesta entrevista. Entre setups analógicos e os primeiros sets amadores, a sua prática expandiu-se gradualmente para um envolvimento mais amplo com cenas independentes de música eletrónica, as suas redes e os seus espaços.
Uma parte central deste percurso é a criação da Exude Records
O seu trabalho também aparece noutros projetos, incluindo contribuições como Want Me na compilação “Pink Star”, lançada pela label berlinense La Casita, e a faixa Riot
Para além do trabalho enquanto produtora, Damiana continua a desenvolver a sua prática enquanto DJ, enraizada na cultura do techno, electro e vinil, guiada por uma forte atenção às cenas locais e aos artistas dos lugares por onde passa.
Como começaste no DJing e na produção musical? Como foi esse percurso?
Quando vivi em Berlim, um dos meus melhores amigos era DJ de vinil. Passava muito tempo no apartamento dele, onde tinha uma coleção enorme de discos e gira-discos montados em casa. Fiquei muito curiosa e pedi-lhe que me ensinasse a misturar vinil.
Sempre tive uma ligação forte ao equipamento analógico. Quando tocava guitarra elétrica usava amplificadores analógicos de válvulas. Sempre fui muito atraída por instrumentos físicos e tecnologia analógica, por isso o vinil fascinou-me imediatamente. Ver dois gira-discos, duas agulhas e uma mesa de mistura parecia quase mágico.
Ele ensinou-me as bases e comecei a praticar transições em casa dele, sobretudo com minimal techno porque é mais fácil para iniciantes. Alguma coisa fez clique imediatamente no meu cérebro. Despertou algo que me faltava há muito tempo.
Antes de me mudar para Berlim tocava em bandas e fazia muita música. Mas, quando me mudei, vendi a minha guitarra e o amplificador porque precisava de dinheiro. Mais tarde percebi que aquilo de que realmente sentia falta era da minha ligação à música.
Eventualmente comprei dois gira-discos em segunda mão e uma mesa de mistura. Na altura os CDJs ainda estavam nos primeiros tempos, por isso o DJing mais sério ainda era maioritariamente feito em vinil. Também comprei um setup de Traktor com timecode, que me permitia controlar ficheiros digitais através do vinil.
Passei horas intermináveis a praticar no meu quarto num apartamento partilhado em Berlim. Um dos meus amigos mais próximos começou a aparecer regularmente e fomos aprendendo juntes.
O meu primeiro gig foi na cave de um bar na nossa primeira festa Dogma III, uma série de eventos que co-fundei em 2016. A partir daí começámos a organizar pequenas festas em caves, bares e espaços que já nem existem. Tudo começou de forma muito orgânica: salas de estar, apartamentos partilhados, pequenos venues.
A parte da produção veio muito mais tarde. O DJing já tinha restaurado uma ligação muito forte à música e, no início, nunca vi nada disto como carreira. Era simplesmente algo de que gostava profundamente.
Eventualmente comecei a pensar: “Talvez também devesse tentar produzir música.” A música sempre fez parte da minha vida. Tocava instrumentos desde os sete anos, trompete, trompa numa orquestra escolar, e escrevia música para bandas.
Na altura saquei um curso de Ableton e comecei a aprender durante longas viagens de comboio para o trabalho. Passava várias horas por semana em deslocações e aproveitava esse tempo para estudar.
Sou uma pessoa que precisa de compreender as ferramentas com que trabalha. Mesmo que o meu processo criativo seja muito intuitivo e improvisacional, preciso de entendimento técnico.
Levei anos até encontrar o meu processo de produção. Passei muito tempo a perceber que hardware queria usar, se queria manter-me totalmente digital ou incluir uma abordagem analógica.
Durante a pandemia tudo acelerou. Ficamos todes fechades em casa e comecei a fazer música constantemente. A música e o DJing ajudaram-me genuinamente a manter a sanidade num momento em que o mundo parecia completamente fora de controlo.
Quando lançaste música pela primeira vez?
O meu primeiro lançamento saiu em 2024 numa compilação da label berlinense La Casita. Na altura ainda sentia que tinha muito pouca visibilidade, por isso pareceu-me um enorme privilégio.
Mais ou menos na mesma altura também participei numa compilação de apoio à Palestina chamada “Moss on a Stone,” organizada como projeto de ajuda mútua por amigues. Acho que esse lançamento ajudou a colocar o meu nome no radar de outras labels em Berlim. Pouco depois começámos a desenvolver a Exude.
Como começou a Exude?
A Exude começou originalmente como uma série de encontros e festas comunitárias em Berlim em 2023. Só mais tarde evoluiu para label, já em 2025.
Não queríamos fazer apenas mais uma rave, mas criar encontros para a comunidade dançar, conviver e falar sobre hormonas, consumo de substâncias, redução de danos, trabalho sexual, saúde trans. Organizávamos eventos com mesas informativas, performances, mercados e espaços de encontro. O principal objetivo foi sempre dar destaque à arte e às questões trans.
Com o tempo percebemos que organizar eventos DIY podia ser muito difícil. É tudo muito caro e existem muitos riscos. Além disso, eu e Mel começámos a pensar em sair de Berlim nessa altura, por isso começámos a imaginar um projeto que não estivesse preso a uma única cidade. Foi aí que decidimos transformar a Exude numa label.
Já conhecíamos muites produtores incríveis que não tinham uma plataforma para lançar música. Lançar música é como conseguir gigs: é preciso construir uma rede e ter contactos. E como no mundo em que vivemos não existem assim tantos espaços musicais liderados por pessoas trans ou focados na comunidade trans, sentimos que este podia ser o caminho certo.
Mais tarde, tivemos o privilégio de nos aproximar muito da Outra Cena em Lisboa, o que nos permitiu continuar as nossas noites aqui e trazer a nossa comunidade também para este contexto. Mesmo que o formato seja diferente dos eventos DIY originais, a Outra Cena já oferece muitas das estruturas que antes tínhamos de construir por conta própria: equipas de awareness, práticas de redução de danos e políticas de clubbing mais seguro. Eles já têm a infraestrutura e a gestão de segurança que antes éramos nós a assegurar.
Como decidiste mudar-te para Lisboa?
Vim tocar pela primeira vez à Outra Cena através da Shayma numa Keyholders Midnight Party, com o Onio.
Quando entrei naquele clube fiquei completamente impressionada. Foi a primeira vez que experienciei um espaço onde muitas das conversas sobre segurança, inclusão e política de club que existiam online estavam realmente a acontecer na prática. Pessoas trans à frente, line-ups interessantes, abordagem de redução de danos e todas as questões de segurança.
Na altura eu e o meu companheiro, Mel, já estávamos a considerar sair de Berlim depois de 15 anos lá. Sentia que precisava de algo novo. E eu sou uma German bitch, já queria viver fora da Alemanha há algum tempo. Vivi em Amesterdão durante seis meses e queria mesmo deixar a Alemanha para trás durante um bocado.
Voltamos a Lisboa para perceber se podia tornar-se casa. A cidade pareceu logo acolhedora e eu já tinha alguns amigues aqui. Houve qualquer coisa que simplesmente encaixou. Existem tensões em torno da gentrificação e da imigração, especialmente depois do crescimento dos trabalhadores remotos, e eu compreendo essa frustração, mas as pessoas portuguesas são muito acolhedoras e têm uma energia calorosa.
Encontrar casa foi extremamente difícil, mas tivemos sorte em encontrar um apartamento rapidamente. Uma das principais razões para sair de Berlim foi o aumento do custo de vida, que estava a tornar cada vez mais impossível sustentar uma vida artística. Para ser honesta, qualquer vida. Nenhume de nós conseguia sequer encontrar empregos paralelos.
Como foi a tua experiência com a cultura club de Berlim?
Vindo da Baviera, Berlim foi alucinante. Quando cheguei entre 2010 e 2012 fiquei impressionada com a liberdade em relação ao policiamento. Na Baviera a polícia é muito dominante e sentia-me constantemente observada e vigiada. Chegar ali, com toda a energia pós-reunificação e anarquista, squats, espaços radicais de arte, edifícios abandonados transformados em centros culturais, e ver todas estas coisas raras no resto da Alemanha, foi incrível.
E depois, claro, toda a vida noturna. Antes de Berlim eu não entendia o conceito de line-ups ou de seguir DJs específicos. Descobri ali uma relação completamente diferente com a música. Também encontrei níveis de aceitação queer e trans que nunca tinha experienciado antes, e uma enorme parte da minha identidade trans desenvolveu-se dentro dos espaços de clubbing. Isso também tem um impacto enorme no meu som hoje.
Os anos antes da pandemia foram um momento de auge para a nightlife berlinense, especialmente com o crescimento de coletivos queer e feministas que desafiavam espaços dominados por homens. Depois da pandemia tudo mudou rapidamente: aumento das rendas, encerramento de venues e muites artistas a abandonar a cidade.
De dez squats restam talvez dois ou quatro em Berlim, por exemplo, e existia muita energia disruptiva e criativa. Houve um reboot da nightlife e talvez hoje existam mais coletivos FLINTA, mas não são tão radicais como os coletivos queer-femme dessa altura. Isso também reflete as políticas que vemos na vida noturna. A falta de apoio à Palestina em Berlim é muito evidente, porque as pessoas sabem que se forem demasiado vocais podem ser canceladas. E por causa dos Antideutsche e do uso da acusação de antissemitismo como propaganda, alguns donos de clubs em Berlim são até pró-Israel.
Como comparas a cena eletrónica de Lisboa com a de Berlim?
Lisboa parece-me muito mais diversa musicalmente. Berlim desenvolveu uma certa homogeneidade sonora em torno do techno, enquanto aqui existe mais abertura a diferentes géneros.
Também existe mais vontade de correr riscos e criar algo original em vez de reproduzir fórmulas estabelecidas.
Como surgiram as compilações Eternal da Exude?
Queríamos criar algo internacional, ligando comunidades trans através da música em diferentes contextos. Muites artistas presentes nos primeiros volumes estavam a lançar música pela primeira vez. Também queríamos incluir storytelling, spoken word e poesia, não apenas faixas de club. A ideia era refletir a diversidade das experiências trans globalmente.
Como começou a tua colaboração com Enana?
Começou de forma muito natural através da amizade e do trabalho de ajuda mútua. Acabámos por improvisar juntes depois de um gig usando apenas um portátil e uma coluna Bluetooth. Sentimos imediatamente uma química musical e mais tarde começámos sessões de estúdio mais estruturadas. Evoluiu de colaborações improvisadas para música totalmente co-escrita e agora tornou-se um diálogo criativo muito intuitivo entre nós.
Há lançamentos futuros da Exude que possas partilhar?
Sim, estamos a preparar um lançamento de SEMARÃ, um trio ambient baseado em Londres que trabalha com paisagens sonoras, spoken word e música experimental.
Também estou a trabalhar no meu primeiro EP a solo, que explora memória, identidade e transição através do som. Baseia-se na ideia de reprocessar a memória emocional através da música, aquilo a que chamo “Re-Memorizing”.
O EP move-se entre estados de purga, clareza e re-memorização e fala sobre reclamar tanto a história pessoal como o techno enquanto parte da minha identidade para além das expectativas de género.
Considerações finais?
Sinto-me grata pela abertura que encontrei em Lisboa. Existe mais espaço aqui para experimentação e para construir coisas coletivamente. Para mim, no fim, trata-se de colaboração, comunidade e de criar espaços onde as pessoas possam existir e criar juntes de forma mais livre.
Um vislumbre de uma prática moldada tanto pelo som como pelas relações e contextos que a sustentam. Movendo-se entre cidades, labels e pistas de dança, a perspetiva de Damiana abre reflexões mais amplas sobre a forma como a música circula através das comunidades e como essas comunidades, por sua vez, moldam a própria música.
O lançamento de Eternal Vol. 1 & 2 será celebrado numa festa na Outra Cena, em Lisboa, este sábado, 16 de maio de 2026, da meia-noite às 6h da manhã, reunindo vários artistas presentes nas compilações.
Fotografia por Nina